Iyálòòrisá Cris Ty Òsún

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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A instituição de confrarias religiosas

FONTE AWOFA IFAKEMI MIGUEL


A instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os pretos de Angola formavam a "Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo", fundada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os Daomeanos (gegês) reuniam-se em volta da devoção de "Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos", na capela do Corpo Santo, na Cidade Baixa. Os Nagôs, cuja maioria pertencia à Nação Yorubá, formavam duas irmandades: uma das mulheres e da "Nossa Senhora da Boa Morte"; outra reservada aos homens, a de "Nosso Senhor dos Martírios".
Essa separação por etnias completava o que já havia esboçado a instituição dos batuques do século precedente e permitia aos escravos, libertos ou não, assim reagrupados, praticar juntos novamente, em locais situados fora das igrejas, os cultos de seus deuses africanos.
Várias mulheres enérgicas e voluntariosas, originárias de Ketu, antigas escravas libertas, pertencentes à irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e da Igreja da Barroquinha, teriam tomado iniciativa de criar um terreiro de candomblé chamado Iya Omi Axé Aira Intilé, numa casa situada à ladeira do Berquó, hoje Rua Visconde de Itaparica, próxima a Igreja da Barroquinha. As versões sobre o assunto são numerosas e variam bastante quando relatam as diversas peripécias que acompanharam esta realização. Os nomes dessas mulheres são eles mesmos controversos. Duas delas, chamadas Iyalussô Danadana e Iyanassô Àkàlà, segundo alguns, auxiliadas por um certo Baba Assiká, saudado como Essá Assiká no Ipadê do qual falaremos mais tarde, teriam sido as fundadoras do terreiro de Axé Airá Intilé. Iyalussô Danadana, segundo consta, regressou à África e lá morreu. Iyanassô teria, pelo seu lado, viajado para Ketu, acompanhada por Marcelina da Silva. Não se sabe, exatamente, se esta era sua filha de sangue, ou filha espiritual - isto é, iniciada por ela no culto dos Orixás - ou, ainda, se se tratava de uma prima sua. As opiniões sobre o assunto são divergentes e tornam-se objeto de eruditas discussões, estando, porém, todos de acordo em declarar que seu nome de iniciada era Obatossí.
Marcelina-Obatossí fez-se acompanhar nessa viagem por sua filha Madalena. Após sete anos de permanência em Ketu, o pequeno grupo voltou acrescido de duas crianças que Madalena havia tido na África e grávida de uma terceira, Claudiana, que será, por sua vez, mãe de Maria Babiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxunmiwá, da Qual tive a insigne honra de tornar-me filho espiritual, assim como Carybé, Jorge amado, Waldeloir Rego, Emanoel Araújo, todos colaborador desta obra. Iyanassô e Obatossí trouxeram de Ketu, além destas filhas e netas, um africano chamado Bangbose, que recebeu na Bahia o nome de Rodolfo Martins de Andrade, e que no Ipadê, ao qual me referi acima, é saudado como Essá Obitikô.
O terreiro fundado por trás da Barroquinha mudou-se por diversas vezes e, após ter passado pelo Calabar, na Baixa de São Lázaro, instalou-se sob o nome de Ilé Iyanassô, no local onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de Casa Branca do Engenho Velho, no qual Marcelina-Obatossí tornou-se Mãe de Santo, após a morte de Iyanassô. Verifica-se ligeira divergência na versão dada por Dona Menininha, relativa às origens dos terreiros provenientes da Barroquinha. O nome de Iyalussô Danadana não é mencionado. A primeira Mãe de Santo teria sido Iyá Àkàlà (distinta de Iyanassô) que, tendo regressado à África, aí mesmo veio a falecer. A segunda Mãe de Santo teria sido Iyanassô Oká (e não Àkàlà). Não se sabe com precisão a data de todos esses acontecimentos, pois, no início do século XIX, a religião católica era ainda a única autorizada. As reuniões de protestantes eram toleradas só para os estrangeiros; o Islamismo, que provocara uma série de revoltas de escravos entre 1808 e 1835, era formalmente proibido e perseguido com extremo rigor; os cultos aos deuses africanos eram ignorados e passados por práticas supersticiosas. Tais cultos tinham um caráter clandestino e as pessoas que nele tomavam parte eram perseguidas pelas autoridades.
Por volta de 1826, a polícia da Bahia havia recolhido no decorrer de buscas efetuadas com o objetivo de prevenir possíveis levantes de africanos, escravos ou livres, na cidade ou nas redondezas, tambores (atabaques), espanta-moscas e outros objetos que pareciam mais adequados ao candomblé, para adoração dos Orixás Yorubás, do que a sua sangrenta revolução. Nina Rodrigues se refere a certo quilombo, existente nas matas do Urubú, em Pirajá, "o qual se mantinha com o auxílio de uma casa de fetiche da vizinhança, chamada a casa do Candomblé".
Um artigo do jornal da Bahia, de 3 de maio de 1855, faz alusão a uma reunião na casa Ilê Iyanassô: "Foram presos e colocados à disposição da polícia, Cristóvam Francisco Tavares, africano emancipado, Maria Salomé, Joana Francisca, Leopoldina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, o mesmo com o qual seria batizada, trinta e cinco anos mais tarde, Dona Menininha, a famosa Mãe de Santo do Gantois, cujos pais, à esta época, sem dúvida, freqüentavam ou faziam parte do terreiro de Ilé Iyanassô, onde houve esta ação policial.
Com a morte de Marcelina da Silva Obatossí, foi Maria Julia Figueiredo Omonikê, também chamada Iyalodê Erelú, na sociedade dos Geledés, que se tornou a nova Mãe de Santo. Isso provocou sérias discussões entre os membros mais antigos do terreiro de Ilê Iyanassô, tendo como consequência a criação de dois novos terreiros, originários do primeiro. Júlia Maria da Conceição Nazaré, cujo Orixá era Dadá Bayani Ajaku, fundou um terreiro chamado Iya Omi Axé Iyamase, no alto dos Gantois, cuja Mãe de Santo e quarta a ocupar este local, foi Dona Escolástica Maria da Conceição Nazaré, Menininha, a última das famosas Mãe de Santo da antiga geração. Segundo Menininha, Júlia Maria da Conceição Nazaré, fundadora do terreiro do Gantois teria sido a irmã de santo e não filha de Santo de Marcelina Obatossí. Um personagem importante nos meios do candomblé, chamado Babá Adetá Okalendé, consagrado a Oxossi, Originário de Ketu, teria tido um papel importante quando foi criado o terreiro do Gantois, Iya Omi Axé Iyamase.
Eugênia Ana Santos, Aninha Obabiyi, cujo Orixá era Xangô, auxiliada por Joaquim Vieira da Silva, Obasanya, um africano vindo do Recife e saudado Essá Oburô, no Ipadê ao qual já fizemos alusão, fundaram outro terreiro saído do Ilé Iyanassô e chamado "Centro Cruz Santa do Axé de Opô Afonjá", que foi instalado, em 1910, em São Gonçalo do Retiro, depois do Axé ter funcionado provisoriamente no lugar denominado Camarão, no bairro do Rio Vermelho. Sob o impulso dessa grande Mãe de Santo, o novo terreiro rapidamente igualou - e talvez, mesmo, tenha ultrapassado - em reputação os outros candomblés Ketu. Maria da Purificação Lopez, Tia Bada Olufandeí, sucedeu, em 1938, a Aninha e deixou, em 1941, o encargo do terreiro a Maria Bibiana do Espírito santo, Mãe Senhora Oxunmiwá, filha espiritual de Aninha Obabiyi.
Pelo jogo complicado das filiações, Senhora era Bisneta de Obatossí por laços de sangue e sua neta somente por laços espirituais da iniciação. Em outros termos, Iyanassô Akalá (ou Oká) foi, na geração anterior, ao mesmo tempo, a bisavó e a trisavó de Senhora. As coisas ficaram ainda mais complicadas quando Senhora recebeu, em 1952, o título honorífico de Iyanassô, dado pelo Alafin Oyó da Nigéria, por intermédio de uma carta de que tivera a honra de ser portador. Senhora, abolindo o tempo passado, graças a esta distinção, tornou-se espiritualmente fundadora desta família de terreiros de candomblé da nação Ketu, na Bahia, confirmando tão elevada posição em 1962, quando foi presidir, seguida de seus ogans (onde figuravam os colaboradores desta obra, Carybé, Jorge Amado, Waldeloir Rêgo e eu mesmo), o Axexê ou cerimônia mortuária da saudosa, e mais que centenária, Mãe de Santo do Ilê Iyanassô da Casa Branca do Engenho Velho, Maximiana Maria da Conceição, Tia Massi Oinfunkê.
Esta dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os "fuxicos" que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a esse pequeno mundo, cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos fundamentados sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; neste mundo onde o beija-mão, as curvaturas, as respeitosas inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na Corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom tom reinam ainda soberanamente.
Após o desaparecimento da saudosa Mãe Senhora, em 1967, duas novas Mães de Santo lhe sucederam à frente do Axé Opô Afonjá. A atual Maria Estella de Azevedo Santos, Odé Kayodê, retomando a tradição de Iyanassô e de Obatossí, foi fazer uma viagem às fontes, na Nigéria e no ex-Daomé.
Após a morte de Senhora, outros terreiros foram criados, originários todos do Axé Opô Afonjá formando uma terceira geração desta família de candomblés que nasceu na Barroquinha. Citemos o Axé Opô Aganju, de Balbino Daniel de Paula, Obaraim, que viajou para áfrica e aí participou das festas para Xangô, com perfeita naturalidade, como se sua família na houvesse deixando aquele país há várias gerações.
Existem numerosos outros terreiros que seguem o ritual Kétu, como o do Ilé Mariolajê no Matatu, mais conhecido sob o nome de Alaketu, cuja Mãe de Santo atual, Olga de Alaketu, já foi várias vezes à África. Citemos, ainda, o terreiro de Ilé Ogunjá, também do Matatu, do falecido Pai de Santo Procópio Xavier de Souza, Ogunjobí.
Ao lado dos terreiros Nagô-Kétu, há na Bahia os da nação Ijexá. O mais digno dentre deles é o de Eduardo Ijexá, ou Eduardo Antônio Mangabeira, meio-irmão de Otávio Mangabeira, que foi governador do Estado da Bahia. Durante a década de 50 ele enviou cartas redigidas em perfeito Yorubá a seu distante parente, o Rei de Ijexá.
Os terreiros Gegê, onde se praticava o culto dos Voduns do Daomé, eram mais raros. O mais conhecido era o do Bogum, da falecida Emiliana Piedade dos Reis, à qual sucedeu a falecida Valentina Maria dos Anjos, mãe Runhó.
Os cultos Gegê e Nagô (yoruba) se fundiam em terreiros como o de Osumarê, na Rua Vasco da Gama, dos falecidos Antônio de Oxumaré, Cotinha e Simpliciana.
O ritual dos cultos de origem Bantu era inicialmente diferente das cerimônias Nagôs e Gegês. Misturaram-se, depois, tornando-se bastante próximos. A originalidade destes cultos Bantus é difícil de definir. Não se sabe se os rituais Gegê e Nagô foram ou não influenciados por escravos do Congo e de Angola, já presentes no Brasil em grande quantidade, no final do século XVII. Relações mais constantes estabeleceram-se nos séculos posteriores, entre Bahia e Pernambuco e a Costa dita dos Escravos; a maioria dos cativos desembarcaram nestas duas províncias era constituída, então, pelos Gegês e Nagô (Daomeanos e Yorubás).
Expulsemos, em outras obras, as razões comerciais criadas pela presença do fumo na Bahia e em Pernambuco, razões que determinam a afluência dos Gegês e dos Nagôs a estas duas regiões, a partir do século XVIII, e não às outras partes do Brasil, onde os Congos e Angolas continuaram a ser importados em grande proporção.
A palavra candomblé, que serve para designar, na Bahia, as religiões africanas em geral, parece ser de origem Bantu. É possível que as influências das religiões vindas destas regiões não se restringissem, apenas, ao nome dado às cerimônias, mas tivessem dado aos cultos Gegê e Nagô na Bahia uma forma diferente, em certos detalhes, destas mesmas manifestações na África.
Um estudo em separado do ritual Bantu na Bahia á tarefa bastante difícil, pois seria necessário fazê-lo em diversos pontos do Brasil, em lugares onde esta influência Gegê-Nagô não se tivesse feito sentir. Na Bahia, temos que nos contentar com a presença de alguns cantos e ritmos de tambores. Seria necessário, também, localizar os termos Bantu ainda conhecidos, termos estes que os participantes de terreiros Bantus têm tendência a exprimir no seu equivalente Nagô, seja por espírito de descrição, seja para falar numa língua compreensível a seus interlocutores.
Existem na Bahia o terreiro Congo do falecido Manoel Bernardino da Paixão, o Bate Folha, no bairro de Beiru; o terreiro Angola da falecida Maria Neném do Tumbeuci, também no Beiru, e o de seu Filho de Santo, o falecido Manoel Ciríaco de Jesus, o Tumba Juçara, no Alto do Corrupio, hoje sob direção da Mãe
  de Santo Dere.
Destaquemos, finalmente, o caso do falecido Pai de Santo João Alves de Torres, mais conhecido como Joãozinho da Goméa, que deve seu renome ao Caboclo Pedra Preta, e cujo culto, realizando à maneira africana, era dedicado aos ancestrais indígenas, Senhores desta Terra do Brasil. Iniciando no ritual Angola por Jubiabá, Joãozinho foi herdeiro de uma Yansã e se orientou, cada vez mais, em direção ao ritual Nagô. Este caso nos parece típico da ascendência exercida pelo ritual Nagô sobre as religiões de etnias diferentes.
Na própria África, as religiões Bantus parecem centradas sobre uma série de devoções aos ancestrais de um grupo familiar reduzido e não sobre o culto de deuses ligados às forças da natureza. É possível que existissem estes tipos de cultos, mas, na Bahia, eles tomaram uma forma bem próxima da concepção Yorubá. 

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