Iyálòòrisá Cris Ty Òsún

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ori - Princípio de Existência Individualizada



O corpo é constituído de duas partes inseparáveis, o orí, a cabeça, e seu suporte, o àpéré.
Para que um corpo adquira existência, deve receber e conter o èmí, princípio da existência genérica, elemento original soprado por Olórun, o dispensador de existência, Eléèmi, o ar-massa, a protomatéria do universo. O èmi está materializado pelo èmi, a respiração, elemento essencial que diferencia um ára-àiyé e um ará-òrun.
Cada elemento constitutivo do ser humano é derivado de uma entidade de origem que lhe transmite suas propriedades materiais e seu significado simbólico. Essas entidades de origem ou progenitores, existência genérica ou “matérias-massas”, ancestrais divinos ou familiares, são os símbolos coletivos míticos dos quais partes individualizadas se desprendem para constituir os elementos de um indivíduo. Esses elementos possuem dupla existência: enquanto uma parte reside no òrun, o espaço infinito do mundo sobrenatural, a outra parte reside no indivíduo, em regiões particulares de seu corpo, ou em estreito contato com ele. Orí-àpéré, a cabeça com seu suporte, são modelados com porções de substâncias-massas genitoras, mas o interior, o orí-inú, é único e representa uma combinação de elementos intimamente ligados ao destino pessoal. É esse conteúdo, o ori-inú, que expressa a existência individualizada.
Se por um lado o Orí-inú do àiyé reside no corpo, na cabeça de cada indivíduo, sua contraparte, o Orí-òrun é simbolizado materialmente e venerado. Durante as cerimônias de Bori (=bo + orí = adorar a cabeça) ele é invocado e os sacrifícios são oferecidos ao Orí-inú, sobre a cabeça da pessoa, e ao Igbá-ori, cabaça simbólica que representa sua contraparte no òrun.
Cada orí é modelado no òrun e sua matéria mítica progenitora varia. A porção de “matéria” extraída da “matéria-massa” progenitora com a qual é modelada cada cabeça constitui o Ìpòri da pessoa. Esse conceito é muito importante, porque estabelece uma série de relações entre o indivíduo e sua matéria de origem mítica. Determinará o Òrìsà ou Irúnmale que o indivíduo deverá adorar; ele estabelecerá suas possibilidades e escolhas, e, principalmente, indicará suas proibições, os èwò, particularmente em matéria de alimentação.
Dada a importância do Ìpòrí e sua relação com os elementos que individualizam, transcreveremos extratos de uma longa recitação do Odú Èji-Ogbé e do Odù Òse-tùwá que expressam claramente seu significado:

“O Ìpòrí é o que chamamos de Òkè Ìpòri.
Oke Ìpòrí, é assim que ele é chamado e existe para cada ser humano. É como o local onde o rio começa seu curso e que chamamos de Ìpòrí Odò, a nascente de um rio; a origem de um rio a partir da qual o pequeno regato se alarga e corre. Assim também o é para os seres humanos. É aí que o Òrìsà apanhará uma porção para criar as pessoas.
É assim que é chamado o Ìpòrí das pessoas.”

O Òrìsà pega uma porção de palmeira para criar alguém. As pessoas dessa espécie criadas a partir da palmeira, quando nascem (quando vem para a terra) deverão venerar Ifá. O Òrìsà pega um fragmento de ferro para criar uma outra espécie de pessoas. Quando as pessoas dessa espécie nascem, deverão venerar Ògún, a tal ponto que Ògún será seu Olúwarè, seu Senhor no mundo.
Ele (o Òrìsà) pega uma porção de água para criar uma outra espécie de gente. Òsun, Yemoja, Erinlè, Oya, Ajé, Olókun, etc. constituirão seu Okè Ìpòrí.
Ele (o Òrìsà) serve-se da brisa para criar uma outra espécie de gente. Isso quer dizer que Òranfé, Oya ou outras entidades semelhantes constituirão Òkè Ìpòrí dessa espécie de gente.
Os Odù de Ifá que nos explicam sobre isso são Òsetùá e Èjìogbè. Um deles diz o seguinte:

“Orí cria cada um de nós,
Ninguém pode criar Orí.
Òrìsà pode mudar qualquer um na terra,
Ninguém pode mudar Òrìsà.”

Eles jogaram Ifá para Àjàlá que é o fazedor de todas as cabeças no Òde òrun.
Àjàlá é aquele que Olódùmarè colocou no òde òrun para modelar Orí. É um Òrìsà antigo. Ele modela Orí todos os dias e os põe no solo. Aquele que vai do Ikòlé-Òrun para o mundo é obrigatório que ele chegue até Àjàlá para ter uma cabeça. Quando ele aí chega, pode fazer sua escolha.
Os que trabalham com Àjàlá são: Òrìsàálá e Éjìgbè, Oyèkú-méjì, Ìwòrì-méjì,Òdí-méjì, Ìròsùn-méjì, Òwónrín-méjì, Òbàrà-méjì, Òkànràn-méjì, Ògúndá-méjì, Òsá-méjì, Ìká-méjì, Òtùrúpòn-méjì, Òtùá-méjì, Ìretè-méjì, Òsé-méjì, Ofun-méjì. Éèpà a” (Nossos respeitos a todos eles!). Todos esses Odu, que com Osé-tùwá são dezessete, trabalham com Àjàlá em modelar Orí todos os dias. A porção retirada na qual cada Orí é modelado é o Égún Ìpòri (matéria ancestral). Cada um deveria venerar sua matéria ancestral para prosperar no mundo e para que ela venha a ser seu guardião.
Por extensão, o termo Ìpòrí aplica-se a todos os ancestrais diretos de uma pessoa, a seus elementos constitutivos imediatos e, particularmente, ao pai ou à mãe falecidos. Os pés, estando em contato com a terra, são as partes do corpo através das quais os ancestrais “sobem”, o grande artelho direito representa o parente masculino e o grosso artelho esquerdo o parente feminino.
Élédá significa:

E ni èdá: Senhor dos seres viventes.

Esse título é aplicado a Olórun e, por extensão, à entidade mítica a partir da qual foi criado um orí (Òrìsà pessoal). Enquanto Élédá se refere à entidade sobrenatural, à matéria-massa que desprendeu uma porção da mesma para criar um orí, consequentemente Criador de cabeças individuais. Assim, por exemplo, se o Ìpòrí é uma porção diferenciada desse Criador. Assim, por exemplo, se o Ìpòrí de uma pessoa tem por origem o elemento fogo simbolizado por Sàngó, essa pessoa chamará Sàngó, Èlédá mi, meu criador.

“Os Nàgó e a Morte”
Juana Elbein dos Santos

2 comentários:

  1. Gostaria de saber se um filho iniciado que deixou a casa e não levou seu igba ori tem a possibilidade de montar outro simbolicamente para realização das obrigações.Desde já agradeço.

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  2. Gostaria de saber se um filho iniciado que deixou a casa e não levou seu igba ori tem a possibilidade de montar outro simbolicamente para realização das obrigações.Desde já agradeço.

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